Resumos

 

        Conferências

 

David Cranmer
Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Univ. Nova de Lisboa

O uso da música na dramaturgia portuguesa seiscentista
 

No teatro dos autores portugueses do século XVII a música está frequentemente, mesmo que nem sempre, presente. O seu uso, contudo, varia. Se O fidalgo aprendiz, de Francisco Manuel de Melo, constitui uma exceção em termos musicais para além de dramatúrgicos, o corpo principal, na tradição espanhola, quer nas comédias, quer nos entremezes, segue os padrões desta mesma tradição. Para além do uso de clarins e caixas para anunciar a entrada de personagens destacadas (monarcas, generais, etc.), assim como a entrada em cena de músicos ou dançarinos, existe não raramente um fenómeno algo curioso - de um coro nos bastidores, como se fosse uma voz celestial, que faz observações sobre os acontecimentos no palco e os dilemas das personagens.

 

 

Evelina Verdelho
Universidade de Coimbra
 
O Fidalgo aprendiz
entre enganos e des-enganos de tipógrafos, editores e filólogos. Em busca de «agasalho» melhorado para a farsa de D. Francisco Manuel de Melo.

Em carta de 1646, dirigida a um parente, D. Francisco Manuel de Melo solicitava-lhe que o avisasse «de como chegou esse fidalgo aprendiz (…) e do agasalho que por lá recebe». Não se conhece (que saibamos) notícia ou testemunho de resposta dada ao autor, que assim revelava alguma preocupação com o acolhimento concedido à farsa, quando a envia do cárcere. Sob estímulo dessa solicitação do Melodino – depois de comprovada a atenção prestada à obra, ao longo de mais de três séculos e meio, através de várias edições, de que apresentamos registo atualizado – propomo-nos expor elementos informativos sobre o modo como O Fidalgo aprendiz foi «tratado», já não por aqueles a quem D. Francisco o comunicou, em cópia manuscrita, após o ter redigido, mas por tipógrafos, editores e filólogos, na preparação gráfica, nas leituras estabelecidas e na interpretação e explicação de passos do texto. Se nesta comunicação, de alguma maneira, historiamos o caminho percorrido pela farsa no que concerne a sua transmissão e receção, o objetivo que nos orienta é conseguir melhorias para o «agasalho» a que o autor e a obra fazem jus. Embora O Fidalgo aprendiz não se afigure ser, entre os textos patrimoniais em língua portuguesa, dos mais difíceis de editar e analisar, oferece contudo, ainda no presente, alguns motivos – de que damos exemplos – para interrogação, estudo e propostas de leitura em partilha, com contributos que provenham de vários domínios do saber, principalmente os linguístico, literário e histórico-cultural.

 

 

Pedro Cardim
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Univ. Nova de Lisboa

«Monstros de fidelidad».
História, identidade e política no Discurso del duque de Alba al catolico Felipe IV sobre el consejo, que se le diò en abril passado, para la recuperación de Portugal.... (S.l., s.e., s.d.) [1645]. 

Este estudo incide sobre um impresso de autor anónimo intitulado Discurso del duque de Alba al catolico Felipe IV sobre el consejo, que se le diò en abril passado, para la recuperación de Portugal, con su parecer en la misma materia.... Desconhece-se quer o local de impressão, quer o editor deste escrito. No entanto, a partir de elementos contidos no texto é possível afirmar que o Discurso foi impresso em meados de 1645. Não sendo, formalmente, uma peça de teatro, este escrito apresenta um diálogo que teria todas as condições para ser encenado e apresentado num palco. Os dois protagonistas – o duque de Alba e um conselheiro de Filipe IV de Espanha – envolvem-se numa intensa troca de razões sobre a melhor forma de restaurar o domínio dos Áustrias em Portugal. Trata-se, pois, de um texto que revela bem o quão ténues eram as fronteiras entre o teatro, o colóquio escrito e a propaganda. A troca de argumentos percorre uma série de topoi sobre a história, a identidade nacional e a política de meados do século XVII, «dialogando», frequentemente, com algumas peças teatrais daqueles anos. Nesse sentido, este texto mostra que os colóquios, tal como as obras teatrais, foram um veículo privilegiado para difundir noções de pertença comunitária e sentimentos de identidade, bem como reflexões sobre a política no mundo ibérico de Seiscentos.

 

 

Rafael Valladares
Escuela Española de Historia y Arqueología en Roma
Teatro para «vassalos rebeldes». Felipe IV e a propaganda dos Austrias durante a Restauração de Portugal

A guerra de Portugal colocou um desafio importante ao governo de Filipe IV no momento de organizar a defesa da sua causa. Por um lado, a Coroa devia dirigir uma mensagem às suas tropas, destinadas a reconquistar Portugal e, portanto, a infligir violência contra os portugueses. Por outro, o rei devia também pensar que o seu objectivo não era o de combater contra inimigos estrangeiros mas sim o de recuperar alguns vassalos «rebeldes» para os voltar a governar. Em consequência, a guerra da Restauração constituiu um dilema para Filipe IV: se a propaganda era dirigida aos soldados austracistas teria que construir uma imagem negativa dos portugueses de modo a justificar o ataque contra os Bragança; mas se o receptor era o povo português, seria mais adequado referir-se-lhe em termos positivos, com vista a facilitar o governo do reino aquando da sua reintegração na Monarquia Espanhola. O estudo do teatro representado na fronteira de Portugal para as tropas espanholas permite concluir que Filipe IV escolheu este segundo caminho: a visão de longo prazo e o cálculo político imperaram sob a urgência das necessidades bélicas.



Vítor Serrão
Instituto de História da Arte
Tela O Pátio das Comédias e as representações teatrais na arte portuguesa do século XVII

O estudo da tela O Pátio das Comédias, pintura portuguesa da primeira metade do século XVII, exposta no Museu da Cidade, constitui um raríssimo testemunho 'de género' que demonstra a relevância da arte teatral na vida quotidiana olisiponense e no sistema cultural do Barroco. É uma peça deveras importante como retrato explícito de uma representação de teatro na Lisboa seiscentista, considerado como um trecho do Pátio das Comédias e, por isso, de singular valia em termos históricos, iconográficos e artísticos. Não são muitos os testemunhos existentes na nossa pintura da Idade Moderna que, de modo mais ou menos explícito, digam respeito ao Teatro, e muito menos os estudos já levados a cabo em torno das relações entre Teatro e Artes Plásticas em terreno português, se se excluir o caso do importante ensaio de João Nuno Sales Machado sobre A imagem do teatro. Iconografia do teatro de Gil Vicente. Leitura de «Breve Sumário da História de Deos» (tese de Mestrado na Faculdade de Letras de Lisboa, 2002), onde o autor aprofunda a relação entre o Teatro de Gil Vicente e os sentidos teatralizantes da pintura coeva e de outras representações na pintura antiga. Falta-nos, todavia, uma leitura ampla do papel da imagética portuguesa, em contexto e em trans-contexto, recorrendo a uma arqueologia de saberes e ao olhar da iconologia, para que a relação da teatralidade com a literatura e as correntes espirituais possam surgir com outra nitidez e contribuir para dissolver a espuma do tempo que dificulta a leitura integral da arte à luz dos seus sentidos plurais. O ensaio da historiadora de arte Emmanuelle Henin, Ut Pictura Theatrum. Théâtre et Peinture de la Renaissance italienne au Classicisme français (Genève, éd. Droz, 2007), abre justamente esse caminho: destaca as similitudes entre a teoria das artes plásticas e os escritos sobre Teatro e arte dramática, e as flagrantes parecenças que existem entre a arte de comover através da pintura de História (seja sacra, política, alegórica ou mitológica) e o drama que se representa em palco. O Pátio das Comédias pode ser justamente visto a essa luz, no contexto da cultura artística do tempo da Restauração, tal como a originalidade de Molière, como diz Henin, decorre do seu talento de pintar a verosimilhança através da caricaturação da vida real. Modelo eterno das artes da imitação, da ars naturans e da ut pictura poesis, a arte da Pintura passou a assumir os gestos da linguagem, a expressão das emoções vivas e a teatralidade dos discursos humanos. 


 

        Comunicações


Antonio Rivero Machina
Universidad de Extremadura

O alferes Jacinto Cordeiro: identidade literária e compromisso nacional
 

Nesta comunicação pretende-se focar a figura do comediógrafo lisboeta Jacinto Cordeiro atendendo à sua duplicidade de escritor português comprometido com a identidade nacional do seu país, por um lado, e, por outro, de célebre cultor da «comedia nueva», à maneira de Lope, em castelhano. Entendido assim, Cordeiro representa o paradigma da relação que, no século XVII, a maior parte dos literatos lusos mantinha com a Coroa espanhola e com a língua castelhana, relação que no caso da literatura dramática se mantém muito depois da Restauração dos Bragança. O trabalho proposto revisitará o corpus das comédias de Jacinto Cordeiro – Amar por fuerza de Estrella y Portugués en Hungría, a Primera parte de Duarte Pacheco e a Segunda parte de Duarte Pacheco ou Los doce de Inglaterra, para além da sua primeira comédia La entrada del Rey en Portugal – assim como outros textos poéticos que publicou – fundamentalmente o seu Elogio de poetas lusitanos al Fénix de España Lope de Vega en su Laurel de Apolo – nos quais o tema português é constante. A análise do seu tratamento e da sua importância no imaginário deste autor oferece um olhar revelador sobre como os dramaturgos portugueses lograram compatibilizar um exercício teatral natural, que incluía o uso de um idioma estrangeiro como o castelhano, com a sua identidade nacional e até mesmo a reivindicação patriótica antes e depois da sublevação de 1640.

 

 

Carlos Junior Gontijo Rosa
Universidade de São Paulo

O negro mais bem mandado
 

Para uma primeira aproximação ao recém-disponibilizado acervo de textos teatrais portugueses do século XVII pelo CET-FLUL, optamos por tratar do entremez O negro mais bem mandado, de Manuel Coelho Rebelo, através da óptica da comicidade nele observada. Buscamos apontar os efeitos e motivos cômicos presentes no texto dramático, partindo de uma leitura que o contextualize histórica e cenicamente. A partir da situação cômica e da construção do caráter do «Preto», faremos uma rápida comparação com textos seus coetâneos, dentre eles a novela exemplar «El celoso estremeño», de Miguel de Cervantes, que conta com uma personagem negra de construção característica semelhante.

 

 

Daniel Magalhães Porto Saraiva
Université Paris-IV Sorbonne

O labirinto das fidelidades: o papel do teatro na campanha pública da Restauração
 

O confronto luso-castelhano usualmente intitulado «Guerra da Restauração» foi acompanhado por uma acirrada batalha de opinião. As atividades de propaganda e contra-propaganda deram o tom de uma luta em que se combinavam os recursos da violência e da persuasão.

Para neutralizar as iniciativas inimigas e angariar a adesão da população, o governo brigantino engendrou uma vasta campanha pública, responsável pelo surgimento dos dois primeiros periódicos portugueses e pela publicação de centenas de relações de sucessos. Longe de equivaler à projeção da ideologia de um Estado absoluto sobre súditos passivos, a dita campanha enfrentou diversos obstáculos, tendo que se reformular no curso do tempo para responder às dificuldades que se interpuseram à sua consecução.

A presente comunicação se propõe a analisar a incorporação do teatro na propaganda brigantina como parte da estratégia adotada para contornar a crescente insatisfação demonstrada por importantes setores sociais face à multiplicação destes textos noticiosos que, segundo Luís Marinho de Azevedo, inspiravam mais riso que respeito. Enquanto volumosas crônicas destinadas a um público seleto substituíam as ágeis relações e gazetas na tarefa de narrar a guerra, as peças teatrais pareciam assumir a função de falar às camadas mais amplas da população.

Pelo exame da comédia La desgracia más felice, sublinhar-se-á, enfim, o uso do teatro como forma de «reformar e moderar os costumes dos homens» (MARAVALL, 1990), sugerindo-lhes como reagir aos graves dilemas que afligiam uma sociedade dividida entre fidelidades concorrentes.

 

 

Filipa Freitas
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Variações no tempo e no texto: celebrações da vida de Cristo no contexto do teatro jesu
ítico seiscentista

Encontra-se na Biblioteca Pública de Évora um manuscrito, datável do séc. XVII, que apresenta dois textos dramáticos de tema religioso, provavelmente inscritos na actividade pedagógica dos jesuítas. A grande percentagem de texto comum, que revela abundantes semelhanças formais, não impede, todavia, diferenças textuais que parecem resultar das festividades para que foram compostos ou adaptados. O cotejo que se pretende levar a cabo terá em conta as características extratextuais de cada um e a progressiva distância que entre eles se instala, da simples variante textual à (re)escrita. A análise esclarecerá as circunstâncias da sua composição e representação, no contexto do ensino jesuíta.

 

 

Flavia Maria Corradin
Universidade de São Paulo

A Restauração portuguesa vista sob o olhar teatral do Seiscentos e do Oitocentos
 

A presente comunicação intenta examinar a Comédia Famosa de La Feliz Restauración de Portugal y Muerte del Secretario Miguel De Vasconcelos, de Manuel de Almeida Pinto (1649), inscrita no Teatro de Autores Portugueses do século XVII, edição preparada pelo Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa, confrontando-a com a «comédia histórica» D. Filipa de Vilhena, de Almeida Garrett, representada no Teatro do Salitre em 1840, mas publicada apenas em 1846. Ambos os textos trazem para o palco os momentos imediatamente anteriores ao 1º de Dezembro de 1640, data da Restauração política portuguesa frente ao domínio espanhol. As duas peças encenam ainda, paralelamente aos acontecimentos históricos, casos de amor fictícios(?), que contribuem para revelar as características das personagens e meandros do acontecimento histórico enfocado. Interessante notar também a participação do gracioso Bitonto, na peça de Almeida Pinto, bem como do criado Custódio e do ambíguo Barnabé Fulgêncio na comédia oitocentista, que concorrem para elucidar o entrecho. Pretendemos, assim, depreender a visão apresentada pelas duas peças, uma vez que o primeiro texto se circunscreve a um período bastante próximo ao fato histórico e o outro apresenta a marca do Oitocentos pela pena do liberal Almeida Garrett. O modo como os dois autores trazem para a cena o acontecimento histórico, seus antecedentes, suas personagens (históricas e teatrais) permitir-nos-ão revelar aspectos importantes de uma vertente teatral que continua a mostrar-se importante na dramaturgia portuguesa: a história da nação.

 

 

Guillermo Gómez Sánchez-Ferrer
Universidad Complutense de Madrid
O teatro de autores portugueses nos prelos castelhanos

No âmbito do encontro dedicado ao Teatro de autores portugueses do século XVII, propõe-se o estudo da presença de obras de dramaturgos portugueses na imprensa espanhola do Barroco, complementado, assim, uma primeira aproximação levada a cabo noutro lugar sobre a presença do teatro castelhano nos prelos portugueses desse período.

Com este objectivo, seguiremos os passos de investigadores como Moll, Chartier, Cruickshank, Vega García-Luengos ou D’Artois para analisar as edições onde aparecem textos de vários dramaturgos de origem portuguesa. Posteriormente, procuraremos comprovar se a sua inclusão nas coleções castelhano-aragonesas responde (como se demonstrou a propóstio das partes de comédias) à coerência interna de um produto unitário, dirigido a um leitor específico, ou se se trata de mera coincidência editorial.

Por fim, prestaremos atenção à recepção (impressa e leitora) da produção em castelhano dos escritores lusos no outro lado da fronteira. Entre outras obras estudaremos a publicação de peças tão sigificativas como as comédias de Jacinto Cordeiro na coleção de Diferentes autores, as obras de Manuel Freire de Andrade dadas à estampa em Madrid e Zaragoça ou as peças de Matos Fragoso inseridas nas recompilações de comédias e entremezes da segunda metade do século.

Pretende-se, assim, determinar, em última instância, se a difusão impressa do teatro português em Castela e Aragão corresponde a uma estratégia editorial atenta às formas dramátias provenientes de Portugal (paralela à atenção que a imprensa portuguesa votou ao teatro castelhano) ou se apenas algumas obras específicas conseguem passar a fronteira (geográfica e cultural) de um reino para o outro.

  

 

Isabel Boavida
Addis Ababa University

A tragicomédia El Mártir de Etiopía: uma encomenda cumprida
 

A tragicomédia El mártir de Etiopía foi redigida, possivelmente na década de 30 do século XVII, por Miguel Botelho de Carvalho, um poeta bilingue português que, apesar de ter dado à estampa quatro livros, é hoje uma figura praticamente ignorada no panorama das letras portuguesas. A obra enquadra-se no modelo dramatúrgico fixado por Lope de Vega no tratado em verso El Arte nuevo de hacer comedias, explorando, a par da intriga amorosa indispensável em que se contrastam dois modos de amar, um episódio histórico ocorrido em 1541-43, a expedição militar à Etiópia liderada por D. Cristóvão da Gama. A encenação do martírio de D. Cristóvão às mãos do imã Ahmad ibn Ibrahim al-Ghazi (transformado em general turco) inscreveu-se no processo de construção da imagem da linhagem da Casa da Vidigueira, iniciado por D. Francisco da Gama e continuado pelo filho, D. Vasco Luís da Gama. Aproveitou igualmente aos propósitos da Companhia de Jesus, expulsa da Etiópia em 1633 e empenhada em provocar o interesse do poder político numa acção directa na Etiópia que restaurasse ali a presença missionária. A peça serviu, assim, duas causas que agitavam a mesma bandeira cujo emblema era o martírio do Gama. A representação pela Companhia de Antonio de Prado e posterior publicação num volume que incluía as Rimas Várias do poeta, são peças do xadrez em que se jogavam as relações entre a literatura e o poder.
Esta comunicação almeja apresentar esta peça Seiscentista quase ignorada no contexto da sua produção e representação, e discutir possibilidade e modalidade de edição.

 

 

Jamyle Rocha Ferreira Souza
PPgLitA/IFBAIANO /Universidade Federal da Baía

Auto del Nacimiento de Cristo...
de Francisco Lobo: permanência de uma matriz cênica
 

O Natal, importante celebração no mundo cristão, junto com a Páscoa, é encenado frequentemente nas artes cristãs ocidentais. No período quinhentista, muitos elementos da matriz cênica do nascimento de Cristo eram utilizados como estratégia dramática nas diversas representações da dramaturgia ibérica, frequentemente encenadas nos salões palacianos, inclusive sem o fundo típico religioso. Trata-se sobretudo de uma técnica intimamente relacionada ao esquema tradicional do programa litúrgico natalino: o anúncio do anjo aos pastores; a ida dos pastores ao presépio; a adoração; e o oferecimento de presentes. Parece-nos que a cena dramática do século XVII na arte de Francisco Rodrigues Lobo, notadamente o Auto del Nacimiento de Cristo y edicto del emperador Augusto César, serve de elo de ligação entre a dramaturgia quinhentista e a dramaturgia seiscentista. Nota-se no desenvolvimento das personagens, principalmente as pastoris, os desdobramentos dramáticos que apontam para a cena do presépio. É nesse sentido que propomo-nos, neste trabalho, tecer algumas considerações sobre a tradição natalina e suas estratégias dramáticas na peça supracitada de Francisco Rodrigues Lobo.

 

 

José A. Rodríguez Garrido
Pontificia Universidad Católica del Perú

Embaixada espanhola e teatro em Portugal: os festejos do Marquês de Castell dos Rius em homenagem ao príncipe D. João (1692-1695)
 

Em 1690, vinte e dois anos depois de Espanha ter reconhecido a independência portuguesa, Carlos II designou o Marquês de Castell dos Rius como enviado extraordinário em Lisboa e, seis anos mais tarde, nomeou-o embaixador. Apesar do objectivo explícito da sua primeira missão ser apenas o de congratular os reis de Portugal pelo nascimento do príncipe (o futuro D. João V), durante os anos da sua residência em Lisboa o Marquês desenvolveu várias actividades destinadas a consolidar a aliança entre os dois reinos. Para isso, entre 1692 e 1695, organizou uma série de festejos teatrais no aniversário do príncipe. Deste conjunto chegaram-nos cinco loas, uma comédia, uma mojiganga e um fragmento dramático. Várias destas loas foram escritas pelo licenciado Pedro José de la Plana, mas a comédia saiu da pena do próprio Marquês. Este corpus mostra explicitamente o uso do teatro com fins políticos. Por um lado, revela de modo claro o reconhecimento da sucessão portuguesa dos Bragança por parte da Coroa espanhola; mas demonstra ainda o objectivo de consolidar alianças políticas na administração e na defesa dos territórios que ambas as coroas possuiam no norte de África. O teatro organizado por Castell dos Rius mostra, deste modo, como o modelo do teatro de corte espanhol serviu, no contexto português, como ferramenta para redefinir os vínculos entre as duas Coroas nos finais do século XVII.

 

 

José Javier Rodríguez Rodríguez
Universidad del País Vasco

Rebelo reescrito: de La burla más engrazada a A peça mais engraçada
 

A investigação desenvolvida durante o período de execução do projecto Teatro de autores portugueses do séc. XVII: Uma biblioteca digital permitiu, entre outras coisas, exumar vários tomos de entremezes manuscritos que reúnem textos dos séculos XVII e XVIII e que demonstram a popularidade deste género teatral em Portugal durante estas duas centúrias. Estes volumes, e outros que no futuro se possam encontrar, contêm um tesouro de documentos para o estudo e a caracterização das especificidades deste género dramático no contexto português. Entre eles, terá que se contar com o êxito colhido pelo autor da Musa entretenida de varios entremeses, Manuel Coelho Rebelo, editada em 1658 e reeditada em 1695, colectânea que encontra vários dos seus títulos copiados nos referidos códices.

Concretamente, o volume do Instituto Carolina Michaëlis de Vasconcelos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra contém dois textos que procedem da Musa entretenida. Por um lado, no nº 45 reproduz-se o entremez castelhano Los valientes más flacos. Por outro, no nº 4 encontra-se transcrita a obra Entremez da peça mais engraçada, versão em português do entremez castelhano La burla más engrazada. A passagem do castelhano para o português é por si só um facto notável, pois confirma o êxito das obras de Rebelo e a tentativa de assegurar a sua permanência no repertório teatral autóctone. Por outra parte, a comparação entre a versão portuguesa e o original castelhano revela um trabalho rigoroso, hábil e coerente, inspirado por critérios estéticos e ideológicos muito relevantes para o estudo da evolução do entremez em Portugal.

 

 

José Pedro Sousa
Centro de Estudos de Teatro

Ler novamente o teatro de autores portugueses do século XVII
 

Para além da intriga representada, os textos de teatro encerram outro tipo de memória que, sem prejuízo para a história da literatura dramática, possibilita o (re)conhecimento da história do espectáculo. São referências mais ou menos explícitas aos modos de fazer o teatro, aos seus cânones e à(s) sua(s) prática(s), a lugares e a pessoas, que tanto podem remeter para um conjunto de preceitos de âmbito geral como para as circunstâncias concretas da execução material de uma determinada obra.

Propõe-se uma nova leitura dos textos de teatro focada no valor documental destas obras e possibilitada pelo recurso às ferramentas de pesquisa disponíveis na base de dados textual Teatro de autores portugueses do século XVII. Visa-se recuperar, assim, a memória do teatro dispersa pelo corpus da dramaturgia portuguesa seiscentista. Através de uma análise macro-textual deste conjunto de textos e de pesquisa temática, pretende-se identificar e contextualizar a informação contida nestas peças pertinente para o estudo da história do teatro em Portugal no século XVII.



Manuel Calderón Calderón
Centro de Estudos de Teatro

Anjos e leviatãs: o teatro político de
Antonio Enríquez Gómez 

As comédias políticas de Antonio Enríquez Gómez reflectem a crise de autoridades em matéria política à época. Apesar da relação patriarcal entre o rei e o seus súbditos se fundar em pressupostos iusnaturalistas, El maestro de Alejandro sentencia que «el amor no hace monarquía». E se as personagens destas comédias oscilam entre o racionalisto aristotélico-tomista e a razão de estado maquiavélico-hobbesiana, Don Álvaro, em El rey más perfecto, opõe a força, o risco e a vontade do «povo» à «razão» divina da lei. No contexto da crise da monarquia hispânica, as críticas de Enríquez Gómez não se limitam aos representantes e funcionários do Estado, abarcando também a Igreja e o Terceiro Estado.

 


María Rosa Álvarez Sellers
Universitat de València

A raia quebrada: a Restauração portuguesa em ambos os lados da fronteira
 

A história portuguesa foi tema de muitas peças de teatro espanholas do século XVII e deste acervo destacou-se o papel da Casa de Bragança tratada sob pontos de vista divergentes de acordo com o momento cronológico de produção da obra, como tentaremos comprovar com o estudo de El Duque de Viseo (1608-1609), de Lope de Vega, e La tragedia del Duque de Verganza (1641), de Cubillo de Aragón, já que os acontecimentos em torno do reinado de D. João II se converteram em metáfora de um assunto de importância vital: a chamada Restauração portuguesa, que pôs fim ao período da Monarquia Dual (1580-1640). Também os dramaturgos portugueses se ocuparam de tão relevante questão, escrevendo inclusivamente em espanhol «por que Castela saiba ler em língua sua glórias nossas», como disse Manuel Araújo de Castro. O nosso objectivo é analisar a percepção de cada uma das nacionalidades sobre o fiasco da União Ibérica, tão ansiada por Castela como recusada por Portugal, através da análise de duas obras contemporâneas deste acontecimento: La mayor hazaña de Portugal (Lisboa, 1645), de Manuel Araújo de Castro, e Feliz restauración de Portugal y muerte del Secretario Miguel de Vasconcelos (Lisboa, 1649), de Manuel de Almeida Pinto.

 

 

Rogério Miguel Puga
CETAPS, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa

Intertextualidade(s) em Torno de um Mito Nacional Literário em Los Doze de Inglaterra (1634): A Recuperação de uma Temática Anglo-Portuguesa por Jacinto Cordeiro
 

Em 1634, Jacinto Cordeiro publica, na Segunda Parte de las Comedias del Alférez Jacinto Cordero, a peça Los Doze de Inglaterra, que poderá ser lida como um projecto nacionalista e ao longo do qual é recuperado humoristicamente o mito nacional literário dos Doze de Inglaterra, grupo de cavaleiros lusos  no qual se destaca Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço. A nossa comunicação estuda, através de uma abordagem imagológica, os núcleos temáticos, os auto- e hetero-estereótipos, bem como o diálogo intertextual da peça com obras anteriores que representam o episódio cavaleiresco de cariz anglo-português para analisar de que forma e por que razões essa tradição é recuperada pelo dramaturgo pouco antes da Restauração.

 

 

Tatiana Jordá Fabra
Universitat de València

Teatro de ardis e fingimentos: a função do engano desde o teatro vicentino ao entremez do século XVII
 

O engano é utilizado de forma constante e com diferentes finalidades nas obras de Gil Vicente, demonstrando o engenho do autor em peças tão distintas como a Tragicomédia de Dom Duardos, a Floresta d’Enganos ou a Farsa da Índia, entre outras. Neste trabalho vamos averiguar de que forma este recurso evolui na prática cénica portuguesa posterior através do estudo de uma selecção de entremezes do século XVII pertencentes ao corpus do dramaturgo Manuel Coelho Rebelo.

 

 

Teresa Araújo
Universidade Nova de Lisboa

Procedimentos engenhosos: o dramaturgo dramatizado
 

A hipótese de Pedro Salgado corresponder à referência de certos elementos dramáticos dos seus Diálogo gracioso (1645) e Mayor gloria de Portugal (s.d.) é suscitada, desde logo, pelas alusões de duas figuras das peças ao nome do autor e à sua destreza nas letras. Mas também é favorecida por outros constituintes com conexões extraliterárias políticas e académicas. O estudo agora apresentado argumenta a favor da conjectura, aprofundando criticamente estes aspectos e alegando que o provável artifício de interseção do real e da fantasia deriva da forte «teatralización de la vida [que] se apodera del hombre [barroco]» e consequentemente das suas criações dramáticas (Díez Borque, 1988).